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19.9.12

Morte a dentro de segunda à sexta-feira


SEGUNDA-FEIRA

Acho que estou morto. Vivo morrendo, na verdade. Estou perdido dentro de mim. Não encontro o chão das coisas. Tudo o que piso são pedaços de mim. Errante e constantemente peregrino cavalgo terras e outros mares entre as veias saturadas. Estou com o cabelo inchado, os olhos, a boca, as narinas e os ouvidos cheios. Sinto que o meu corpo está todo cheio de alguma coisa. As vozes parecem-me encher ainda mais. Tudo está cheio dentro de mim, do Norte ao Sul. No Este não encontro oceanos e no Oeste nenhuma fronteira. Estou cheio de mim. Acho que vou explodir! Vou rebentar as vivências e deixar o vazio que é o nada que sou.

TERÇA-FEIRA

Muitas são as vezes que ando sentado, ambulante e pedestre nas mortes que morro todos os dias quando o sol abraça o meio-dia. Não terá enterro nem deposição de flores ao dia oitavo! Morri na hora e em parte incerta. Cavalguei o céu em tempos em que ele estava nu e de costas viradas, embarquei com o sol ao meio, diante de canaviais enquanto outras barrigas negras rachavam centenas de vãos. Morri sentado com a minha gente imóvel. Olho o infinito, conformado com a tão estranha morte que morri no romper do dia, quando ele atravessava o Vénus a caminho do Marte.

QUARTA-FEIRA

Metas. Morro às quartas como cidadão de quinta. Não retorno chamadas nem dou respostas às mensagens não lidas. Mahatma morreu sentado no seu norte. Morreu de fome de paz. Morreu de sede acorrentado de ideais. Era à quarta que idolatrava o seu ente infiltrado num país que queria-o liberto. Na verdade era urgente libertar o homem antes que a paz se instalasse. Ao inverso, no meu país a paz é dada com sobras e aos homens a derrota de nunca se saber do seu paradeiro. Mortos ou vivos tanto faz, muitas mortes ocorrem de olhos abertos. Morro às quartas vezes pelos quatro cantos que o mundo tem e pela quadrática forma de ser desta liberdade que me rodeia. Morro à quarta como cidadão de quinta cujo corpo deambula pela sexta como herói que vai a enterrar no sábado chuvoso e sem chapa 100 no Patrice que nos leve a Gongodzuene. Morro escoltado de gente que me desconhece com rosas e cravos nas entranhas da harmonia existencial. Fé de Cristo, de onde me conhece esta gente toda que só exige de mim, metas!

QUINTA-FEIRA

Deixo os céus enfermos renegados pelos olhos enfurecidos desde ao primeiro dia. Olho para o chão que se afasta. Rastejo na ilusão das areias indefesas da saliva ardente de bebidas fermentadas com veneno. As mortes que me escalam atingem-me dissolventes. Era suposto viver por mais um instante ainda na correria dos solos que se afastam de mim. Corro. Canso. Meros devaneios. Cuspamos já para isto. Cuspamos já estas vidas que comemos ao jantar de ontem. Cuspamos já os sonhos que bebemos na manhã de hoje. Cuspamo-nos já de nós mesmos. Puxa! Não é normal tanta birra enquanto gente vagueia sem rumo nestes mesmos chãos que pisamos. Aqui está a quinta vez que me calo, pelas muitas vezes que quero viver este fim do mundo. Que lutas se enlaçam na derrota quotidiana dos homens? Muita pressa em tudo que nos rodeia, a vida e a morte correm apressados em mesma direcção. Quem chega primeiro?

SEXTA-FEIRA

Não conheço outras vidas que andaram por estas ruas. Apenas mortos caminham o escuro desta noite abençoada, de barrigas cheias de sangue e limão; corpos nus elevados ao mais infinito estremo da loucura, pé e bunda sarados, corpo e cabeça inchados, olhos e cabelos na pura lengalenga dos homens decepados antes do sol do sábado que ameaça antecipar-se. Vigarices! Estes mortos morrerão aqui e agora ao relento, como os ventos insolentes do Norte a Sul, rabo e juízo comprados pela bilha farta e carnes gordurosas. Compaixão às mulheres que rezam por esses defuntos homens, no dia em que hão-de morrer de tanta felicidade de ser pobres. Incrível! nunca vi tanta morte de uma só vez! Esta é a única chacina em que Deus deixou que os homens terminassem o trabalho antes de consumarem o seu instinto mortífero.

SÁBADO

Mesmo que o dia amanheça, não há luz nem energia; mesmo que o corpo se levante, não tem voz, não tem gesto, não tem vida. Mesmo que o dia amanheça, não haverá noite porque o escuro é este, não haverá gente porque as gentes são estas moribundas, não haverá a vida, porque o fim é este, a muito já escolhido pelos homens da terra. Vivo, a muito enterrado, morto, apenas a repetição da loucura que une os homens. A certeza de que morri e nada mais sou.

DOMINGO

Madrugada chuvosa. Manhã gelada com gente cantando. O mungir das almas espeta o sol frio e gelado. Flores fazem a decoração perfeita entre o jardim de rosinha e as campas seguidas de abelhas. Não há sossego nestes chãos. Em nada adianta o além. Aquém de nós está um Deus que nos cospe as fórmulas da morte de tempo em tempo. Deus nosso? Se não vejamos, onde está o tio Pedro, pai de Netinho e do pequeno Leão? Onde estão os assassinos da mãe da Yolanda que se quer teve quem lhe dissesse que tantos filhos aos 18 eram o prenúncio da pobreza? Em que lugar se encontra o pai do Abel que não o vê a crescer e a formar-se? Estão todos eles na igreja? Ah! Deus nosso que no céu Te encontras, estás cansado de estar só? Leva-me também.

Língua de Cão


Já não é carro cobrador de impostos
Nós descolonizámo-lo.
Já não é terror quando entra na povoação
Já não é Land-Rover do induna e do sipaio.
É velho e conhece todas as picadas que pisa.
É experiente este carro britânico
Seguro aliado do chicote explorador.
Mas nós descolonizámo-lo.
No matope e no areal
Sua tracção às quatro rodas
Garante chegada às machambas mais distantes
Às cooperativas dos camponeses.
Entra na aldeia e no centro piloto
Ruge militante nas mãos seguras do condutor
Obedece fiel a todas as manobras
Mesmo incompleto por falta de peças.
- Descolonizámos o Land-Rover (…)

Descolonizamos o Land-Rover, Albino Magaia, poeta moçambicano.


E começo assim este meu pacato discurso, como um verdadeiro assimilado e não falante da língua dos ma-Changana, ma-Ronga e outras etnias que faz de nós não mulungos, esta cor branca que nos torna(rá) gente nesta terra.
Começo assim este devaneio que me faz lembrar de uma pergunta que me é frequente: qual é a minha língua materna?

I
A quem disse-me que língua materna é aquela que nascemos e nos é ensinada logo a primeira, por outras palavras, é a primeira língua que falamos.

II
A quem disse-me que língua materna é aquela que me foi ensinada por minha mãe. Aquela que quando ela, a minha mãe, quando queria que me dirigisse a ela, a usasse.

III
A minha mãe é ma-Changana, por outras palavras, a minha mãe, nasceu em Chicumbane, distrito de Xai-xai, província de Gaza, sul de Moçambique.

IV
Nunca se quis saber, mas vou dizer, o meu pai é também ma-Changana, em outras palavras, o meu pai, nasceu em Novungueni, local onde graças aos heróis tombados, e como marca da descolonização (o que tem a ver Novungueni com o colono?) ganhou o nome de 3 de Fevereiro (dia dos heróis moçambicanos).

V
E eu? Eu nasci na Matola, província de Maputo e cá vivo. Se sou de Maputo? Bem, no meu bilhete de identidade vem “natural de Maputo”. Mas voltemos à questão: qual é a minha língua materna?

VI
Na verdade a primeira palavra que disse (ou que gostaria de ter dito) quando comecei a falar, foi “mamã”! E mamã que língua é?

VII
Volvidos bons exercícios do “mamã” fui dizendo outras coisas, como “quer água”, “quero comida”, “quer dormir com papá e mamã” e tantas outras palavras em língua portuguesa como minha mãe ensinava assim como os meus irmãos mais velhos e meu pai.

VIII
Saí a rua (a minha rua chamava-se rua “O”, agora, é Av. Mártires da Machava, outros heróis moçambicanos que tomaram lugar), brinquei com Netinho, Simone, Nina, Helena, Djossefa, Lulu, Florêncio entre outros. Todos eles, expressavam no moderno xi-Ronga misturado com xi-Changana, afinal, Maputo é terra dos ma-Rongas!

IX
O que sei é que a segunda língua, aquela a que os meus amgiso falavam, os meus irmãos disseram-me que era Dialecto. E quando a minha mãe me ouvia a falar, deva-me uma tareia dizendo “não fala a língua de cão”. Aliás, quando descobriram que eu ia falando alguma coisa daquilo, proibiram-me de sair de casa.

X
Quando comecei a estudar História (5ª classe) no capítulo que falava da dominação colonial portuguesa em Moçambique, vi que uma das formas dessa colonização era fazer com que os moçambicanos abandonassem a sua cultura, a tal “cultura de selvagens” e por conta disso, as línguas (como muitos outros hábitos culturais) foram proibidos e até definidas como a principal barreira para a nossa civilização. Por tanto, o xi-Changana e outras línguas nativas passaram a ser conhecidas como línguas de cães e, como tal, não podia o Homem, tido como único animal racional, falar.

XI
A minha mãe tal como outras mães que sabem “o que custou a liberdade” teceram que só conhecendo o Português é que se podia ser gente na sociedade. Realmente isso é um facto, descolonizado que foi o Português, já no Pós-colonial que vivia-se (ou vive-se) em que ele foi revogado como língua oficial, era de capital importância massificá-lo e fazer com que todo moçambicano o falasse.

XII
Voltando a questão: qual é a minha língua materna? Bem, volvidos anos de lá até cá, aprendi que embora tenha falado a primeira o Português, ele já mais será a minha língua materna. A minha língua materna é o xi-Changana, essa língua de cão que os meus ancestrais, os vovô Txutxululu, Gutleia, Bovane, Muntimuni, Injuasse, Nlhevo e Nambita, este último meu chará de tradição, falaram. E aquela que desde ao ventre da minha mãe, me foi ensinada e hoje, falo com orgulho de poder partilhar o que sou com outros povos, ciente de onde venho.

XIII
Hoje, aliás, mesmo o Governo está ciente da importância das línguas nacionais ou línguas nativas, tanto que já está em implementação o ensino bilingue em todas escolas primárias.

XIV
Em jeitinho de conclusão, posso (ou podemos) dizer que só agora, com essa consciência, em mim (como pode ser em qualquer cidadão moçambicano), é que ultrapassamos o período pós-colonial em Moçambique. Período em que faltava que nós, nos descolonizasse-mos de nós mesmos. 

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TEXTO DA MINHA ESTREIA NA REVISTA ELLENISMOS COM A COLUNA XITIKU NI MBAULA, DANDO AO MUNDO O SAL DO MEU SOLO PÁTRIO.

29.6.12

Dunga, o Estragado



Só na madrugada do dia 24 de Junho de 2012 conheci a sua verdadeira identidade: Luís Valente Funjua. Antes daquela madrugada em que copos de cerveja faziam a confraternização com a minha exclusiva presença (pela primeira vez) na barraca da tia Vitória, a vizinha esposa do tio Manhiça, o polícia, não poderá imaginar que Dunga ou Estragado, nomes que desde criança ouvi os moradores da zona a chamarem-no é Luís Valente. Sempre soube que seu pai é o madala Fúndjua, no jeito suburbano de se dar os nomes, mas a informação não passava disso. Eu mesmo, quem saberia que sou Eduardo Quive se não fosse esses jornais em que ando a laborar, rádios e televisões que me chamam para entrevistas e opiniões? A propósito, hoje me estreei como parte da equipe do jornal @Verdade, mais uma dessas coisas que me fazem ser pouco escritor e muito jornalistas.
E por esta veia da profissão acabei de me lembrar de tirar umas fotos ao Dunga enquanto estava nas habituais sessões de toques, hábitos que mais ganhou depois de ascender para loucura, vencendo os longos anos de lucidez que tivera. É isso mesmo Dunga é um extra-lúcido. E será problema de nome?
Mas esta coisa de nomes é mesmo verdade. Conta-se desde a infância na zona sobre Estragado, Dunga, o filho de quem não se sabe, mas esse era seu nome. Estragado. E como era? Era um estragado em pessoa, se não fosse, então estragava.
Estragado, enlouqueceu na flor da idade. Colheu perfumes de mortos em plena vidisse. Alimentou almas profundas com seu juízo. Ficou maluco de verdade, o Estragado. Estragou a cabeça e já não batia 100.
Na zona a história é assim contada.
Um dia o jovem Estragado, arrebentou as calças, girou consigo mesmo e entornou palavreados pela boca que não tirava simples falácias. Delirava. Gemia. Balbuciava. Patinava. Alucinava. Falava sem provérbios o que nem se quer se entendia. Todos assustaram-se. Pegou no pai a 25, pelas golas. Carregou o velho igualando-o à sua altura de dois metros, mesmo com pernas arqueadas. Estragado era alto. Corria quilómetros de altura. E com seu pai ao mesmo nível de altitude, rebentou a voz dizendo: Afinal quem é meu pai?
É verdade. Estragado estava decidido a estragar o pai para saber quem era seu pai! Uma tremenda loucura. Como pode? Perguntavam as bocas famintas de curiosidades.
Entretanto, o velho espinluncava sob o domínio do ora emouquecido filho, o Estragado. Tremia, transpirado até aos calcanhares. Calculava os metros que o separavam do chão com temor e ansiedade. Temor de lhe ser emprenhada uma aterragem brusca e ansiedade em estar de facto no chão que o seguraria com mais conforto. Estragado ainda dungava o pai com ameaça de o estragar caso não revelasse o grande segredo. Cavilhava-o, sem dó. Amassava-o. Esticava-o a pele rugosa juntando-a com a camisa pela gola. O velho tremia no olhar da vizinhança boquiaberta. Estragado não era homem de cometer tal delito. Nunca se vira, muito menos se imaginara tal atitude por parte de tão perene gente que era o Estrago. Então dali saiam as conclusões, Estragado estava mesmo de juízo estragado.
Enquanto agitado o quintal, a mãe chega de trás. Estragado solta o pai de imediato e vira para a mãe com a mesma indagação – quem é meu pai, mamã? – e nada de resposta. A mãe apenas palavreava de um lado para o outro. Vociferou em tons de ameaça contra o filho, mas este continuava e mais agressivo ainda.
Então, na ausência duma resposta que o satisfazia, Estragado correu para a cozinha e de lá, veio a rua com uma faca. Cortou a pele. Viu que era pouco. Pegou numa lâmina e foi depenando-se centímetro a centímetro, para a dor da mãe, senhora já separada do pai e vivendo no lar doutro homem no bairro vizinho. Já com o sangue a espaçar-se pelos braços, vira-se a mãe, dizendo:
Olha, mamã… olha para este sangue e diga-me a que pai pertenço? Sou filho de quem? Diga-me a verde, já!
A mãe era redundante no falatório, contudo, nada dizia sobre o pai do Estragado. E continuava a sua loucura, estragando-se a si próprio. Até hoje, diz-se na zona, Estragado está maluco. Caso para entrar nos dizeres da população, os nomes fazem a personalidade do homem. Como pode Estragado ser nome de alguém que nem se quer é estragado? Consequência, agora estraga-se a si próprio, estraga o murro dos vizinhos, estraga corpos agredindo e etc.

Mas na sua loucura, Estragado também arranja, continua um bom pedreiro como aquele dos tempos da construção da barraca da minha casa e de muitas outras infra-estruturas a nível local e não só; Pintor e rachador de lenha, para além de ter boas habilidades para cabeceador de bolas e carregador. 

20.6.12

Éramos Crianças

 
 Éramos crianças
Apadrinhados pela fome,
Isolados do banquete.
De camisetas de umbigo fora
Jeans rasgados
Mas não era moda,
Era a desgraça debuxada
Em nosso seminu corpo.
Pálidos, desnutridos
Enterrados no areal
Na roda de matacuzana
Em equipas para jogar xingufo
Sorridentes brincávamos.
Éramos crianças
Francisco Júnior
E éramos crianças, nas pétalas do jardim da vida, açoitados de espectro do futuro em plena mocidade, fecundos na incerteza dos dias, despreocupados com a duração dos tempos, apaziguados de doces canções melódicas do mbalele mbalele, o tana u talhomela nkata, o banana e outras escondidas escondíamos no tempo as memórias do hoje adulto que vivemos, na cabra-cega da vida em que só o dilúvio reina.
E éramos crianças, eu e Marcinha, antes do abandono dos inhas, de mãos dadas para o horizonte, de mãos dadas para o além, de mãos dadas no ntumbeleluana atrás da casa de caniço do mulato, escondidos da vergonha do mundo, apossados pela paixão da idade, no coito da paixão miúda. Quem diria que hoje essa menina seria Márcia!
E as lindas noites de lua cheia, errantes pelas horas que não as víamos passar, crianças que éramos empoeirados depois do banho forçado às 17 horas, agrupados na rua em pleno 10 da noite e por vezes, duas da manhã nas noites de Dezembro.
E éramos crianças, meninos pobres do pacato Patrice que o vimos a ser apossado de gente e de epidemias, sarna, diarreias, matequenhas, gravidezes e loucuras. Ah! Nostalgia sinto quando nesses tempos navego, quando desses momentos me lembro. O Henrique, filho do velho Fúndjua, o rebelde e reguila que torturava e atormentava a todos com sua porrada, feiura e agiotagem já aos 15/17 anos; das dívidas que cobrava à gente mais nova sem que o devessem; da tareia que deu ao Netinho, este por sua vez, queixava à sua mãe, tia Lalate, que saía à rua com fúria de cão, o Dox da minha casa, morto por vayives da zona, e lutava com o Henrique diante dos aplausos de toda a rua, crianças e adultos arruaceiros, ao estilo do nosso suburbano modo de viver no Patrice.
E era um caminho, esse que o Henrique escolhia, das pedradas que deu ao Lopes quando o xingondo se recusava de pagar o habitual imposto de circulação pela rua. Um dia, tirou com uma garrafa partida, olho da sua cunhada e afugentou-se para África do Sul, onde se encontra até hoje, supostamente com seu irmão Mathumana, outro conhecido cobrador de tributos.
Ah! Lembro-me do dia que ele nos encontrou nos derradeiros momentos do madjokodjoko entre eu e a Helena, sua irmã que, cansada de reprovada mais de 3 vezes na sétima classe, optou também pelo jone, voltou depois de um tempo e engravidou do primo com a idade ainda por explorar.
Lembro-me do Pala que no madjokodjoko na barraca de chapas de zinco soldado por seu pai, tio Zefanias, já falecido, em que estavam também, o Simone e Netinho, negou de fazer com Helena, a vizinha, queria fazer com sua irmã, Nina, esta que hoje já conta filhos ainda na flor da idade. Nem se quer era problema fazer madjokodjoko com própria irmã, éramos crianças e só entre nós ficou o segredo, no entanto, reféns ao agiota Henrique, que por muito tempo nos chantageava.
Lembro-me também, por causa dessa sessão, da má fama que tive na altura por não ter feito a circuncisão. Aliás, lembro-me do quão, Simone, Pala e outras crianças sofreram na tesoura do vovó Banze, enfermeiro que vive na zona quem se responsabilizou por cortar os bichos do pessoal. Simone passou os dias de capulana e andando de pernas abertas saltitando de dor em cada tocadinha que dava no seu bicho. Todos nos ríamos. Não do sofrimento dele, mas da graça que tinha vê-lo naquele embaraço.
Mas éramos crianças, na hegemonia dos tempos, vendo tudo a acontecer com a nostalgia que tais factos mereciam na nossa inocência, quando pulávamos de casa em casa pedindo assistir, entre sins e nãos da minoria vizinhança que tinha condições. Quanto a mim, o televisor preto e branco da minha casa, tão pequenininho, mas cabendo a gente de quase toda rua, já tinha avariado.
Lembro-me das laranjas da casa da tia Artmisa, a casa que com muito carinho deixava-nos assistir as tão amadas por nós, novelas brasileiras, furtávamo-las enquanto saíamos. E éramos apenas crianças!
Lembro-me de quando jogávamos a bola defronte a casa do tio Pedro, pai do meu sobrinho mais velho Luís, do Francisco, Rosinha, Amélia, Florêncio, Guilherme, Ngelina, Ngeli, Ngeu, Pedó, Miloca e Mevasse, a chará da tia Vitória esposa do tio Manhiça, o polícia. Mateu 7, a vovó Rosalina pegava na bola improvisada de trapos, quando entrava no quintal da casa, para depois incendiá-la e em jeito de proclamar a sua vitória, chamava-nos e reunia-nos em volta daquela fogueira e repetia o seu sermão que lhe fez merecer o evangélico nome de Mateu 7 “é proibido jogar em frente da casa”. E mesmo doutro lado do seu quintal reside o tio Luís, o que bebia e insultava por toda a rua e algures. Este também nos impedia de jogar ali, embora estivéssemos connosco os seus filhos, Paíto, Genito, Lulu e Djossefa, filhos das suas esposas, a tia Palmira e Laurinda, está última já nos cuidados divinos.
Foram tempos. Tempos que éramos crianças e “desentendidamente” construímos o nosso hoje.

8.6.12

Angélica, minha esposa


Era criança quando nos casamos. Foi no verão de 1999 quando casei-me com Angélica, a filha do tio Fernando, o falecido carpinteiro manhembana da zona, chato que até roía os dentes enquanto raspava a madeira que lhe dava o sustento.
Na rua, andava a fama de que tio Fernando era apenas chato para a esposa, tia Isaura, também de Inhambane e filhas, mas de homem não tinha bravura. As grandes bocas espalharam que já entrou um ladrão na sua casa e que para lograrem seus intentos, usavam uma pistola de brinquedo. Conta-se que os mesmos ao invadir a casa que tinha o murro de espinhosas, direccionaram-se ao quarto em que o falecido dormia com a sua esposa. Apercebendo-se da presença dos larápios, levantou-se e abriu a janela dando de caras com os mabandido, estes que com a pistola apontada ao seu rosto, disseram: “não se mexe”. O homem ficou seco. Pegou uma paralisia instantaneamente, dando assim, o acesso livre aos ladrões que foram roubando ao seu bel-prazer.
De resto, muito não se falava dele, além do nome que lhe atribuíram de Tchelomba, pelo seu sotaque misturando Changana e Bitonga. Mas tio Fernando era pai da Angélica, a minha esposa de infância. Lembro-me muito bem do dia em que foi o nosso casamento eu com oito anos de idade. A Rassi, filha do tio Jonas e da tia Amélia e irmã de Nando, Pedrito, Ntone, Vitorino e Handzul.
Pedrito, depois de ter ficado muito tempo na África do Sul, decidiu voltar ao país e para casa dos pais. Mas como tio Jonas ganhou na rifa, tinha decidido comprar um terreno lá para São Dâmaso e fez uma barraca com o nome “Quinta da Lua”, por onde marrara cuidando dos negócios do pai. Já o Nando ou Nandix como é, em jeito de gozo, tratado, enquanto apostava também pelo djône, investia nas mulheres. Lembro-me daquela que terá sido a sua primeira esposa, a mana Alzira, a vendedora de tomate no bazar do bairro e ainda lobolou depois a Belinha, uma encantadora jovem, com uma cintura conquistadora de olhares nos homens da zona, incluindo as crianças das quais não me excluo. Com a Belinha, pareceu que as coisas seriam boas, mas nada. Voltou da África do Sul num desses natais como era habitual dos madjonidjonis, embebedou-se e encheu de chutes, bofetadas e cabeçadas a Belinha. Rachou-a quase todo o rosto com a porrada começada no quintal de casa para rua sob o olhar de todos. Eu vi cada cacetada que levou a mana Belinha, senti muita pena e muito medo do Nandix, aquele que se parecia mais sério dos filhos do tio Jonas. O pai do Manuelito. E foi sendo assim com a mana Dionora e outras miúdas com que viveu maritalmente.
Ntone ou My Bro, como se afamou pela sua mistura do inglês que já tinha habituado pelas andanças pelo djône, é o penúltimo. Esse aventurava-se pelos carros e motos, investia mais na luxúria.
O Handzul é o que mais fama ganhou pela zona porque era de conduta duvidosa, alguns chamaram-no de ladrão, fumava e bebia, sustentando a vaidade do tempo. São incontáveis as vezes que a polícia fora lá para a rua a sua procura, para leva-lo aos calabouços. Terá até chegado à cadeia de máxima segurança. Este fora o mais problemático entre os sul-africanados filhos do tio Djona. Mas no entanto, o que também se converteu a bom homem.
Vitorino também deu alguns problemas. Era amigo do Gabito, o filho da vovó Eva e do vovô Ubisse. Eram verdadeiros amigos, bebiam e fumavam juntos, mas o problema era um e único: quando se embriagavam lutavam entre si. Espancavam-se. Partiam-se. Era uma tremenda violência. Lutavam na rua e se alguém os acudisse, tal como fazia a tia Vitória, a esposa do tio Manhiça, cada um entrava para a sua casa e buscava um instrumento contundente. Tudo servia, afinal, já se viam como inimigos mortais. O Gabito, amavelmente tratado por Mugabe, pela sua mãe, quando entrava para sua casa, saía no mínimo com uma garrava, partia-a na cabeça do Vitorino, este mais raivoso ainda, ganhava forças sobrenaturais, ia para sua casa e levava uma pá bem cumprida e afiadíssima, atirava-a contra Gabito. Instalava-se o pânico total enquanto os menos atrevidos para acudir comentavam “i vangano”, são amigos eis o significado dos dizeres. Depois de acudidos, aceitavam dormir, os pais simulavam uma conversa para apaziguarem-se enquanto os filhos já dormem. Dia seguinte, eram novamente amigos. Eu admirava a tão forte amizade desses dois!
Gabito era mesmo um homem do álcool, uma vez, bebeu até às tintas, azedou o cérebro e ficou agressivo. Ninguém segurava-o. Nem ele próprio. Entrou na sua casa gritando e partindo tudo que encontrava a sua frente. Abanou árvores e partiu ramos; Estrangulou a cozinha feita de madeira e zinco; deu o pontapé nas panelas que levaram para o chão o alimento do dia; Esmagou a areia que o sustentava em terra. Entrou para dentro onde descansava a sua mãe, pegou nela e encheu de porrada. Nesse momento todos vizinhos já tinham invadido a casa para acudir, incluindo, a tia Vitória que sempre fez questão de presenciar esses momentos de lufa-lufa. Mas só o meu irmão, o mano Victor, conseguiu derruba-lo e deu-lhe uma tareia também. Onde já se viu na educação tão suburbana que nós temos, um filho bater na própria mãe? Era o fim do mundo! O meu irmão amarrou-o na árvore por onde repousou a sua fúria até o amanhecer. Por fim, decidiu seguir o caminho do seu irmão Txône, foi para África do Sul, não optando, portanto, em ir a Lesoto onde se encontrava o seu mais velho irmão, o mano Evaristo e pela Suazilândia, por onde andara Lindo, ou Xicadjuana, como eu li tratava, para depois ele me chamar de Xicaroce.
Por meio desse cenário consumou-se o meu amor com Angélica, até o anúncio da decisão e da data de casamento às nossas famílias.
Já no dia de casamento, estava toda a rua e ruas vizinhas, informados sobre a festa. Tudo era de verdade. A Rassi e Dinoca, esta última filha da tia Sandrinha e neta da vovó Sambo que vivia enfrente da minha casa, foram as que prepararam o bolo do casamento e outros doces. A festa, contrariamente ao que acontece nos tradicionais casamentos, foi apenas na casa da tia Isaura, nessa altura, já viúva do falecido tio Fernando. Tudo esteve lindo até ao mínimo detalhe. As folhas dos coqueiros cortadas e através delas feita a decoração da entrada que usariam os noivos de modo a dar a devida sorte, a farda de capulanas nas mulheres bem ensaiadas nas vozes que entoavam as canções típicas da ocasião.
 A minha mãe tinha me comprado um fatinho de treino novo e sapatilhas para usar no dia do casamento. Comprou-me também uma nova escova de dentes e fez questão de me fiscalizar no banho. Fez os devidos arranjos para que o seu filho não se parecesse marginal diante dos familiares da noiva. E era mesmo um príncipe, Angélica, a princesa. Ela estava linda, de capulana e uma blusa garrida. Uma autêntica noiva como a das novelas com as respectivas biqueiras. Estávamos preparados para nos casar perante os nossos pais e vizinhos. Tudo apostos.
Num verdadeiro acto de anunciação desse matrimónio, fizemos um desfile pela rua toda na companhia do corro de homens e mulheres que cantavam na maior emoção. Deliravam de alegria em ver um casamento do príncipe e da princesa. E nós assumindo a postura dos noivos, como os nobres do dia, longe da pobreza e das desigualdades, caminhávamos aos passos lentos. Abraçados entre braços cruzados. Sorriamos civilizadamente, quase sem abrir a boca enquanto todos vinham à nossa trás, os nossos amigos e admiradores provenientes doutras ruas iam estendendo esteiras por onde rigorosamente passávamos. Ah! Angélica, tu és a mulher mais linda do mundo! Amo-te muito. Ah! Dodoca, eu te amo muito, você é amor da minha vida! Eram esses nossos suspiros no silêncio.
Chegados à casa da Angélica, onde tudo e mais gente nos esperavam, incluindo as nossas mães que passaram a se chamar de masseves por nossa causa, estavam lá, a espera dos noivos que éramos nós. Fomos recebidos com os devidos nkulunguanas e outros ululus dos presentes. A mutchato i lembe wanê! Cantavam todos. A Marcinha também estava, o Netinho, o Simone. Todos estavam. E eu lindo perante a Angélica que até pintou batom naqueles magros lábios.
Com o auxílio das madrinhas, Rassi e Dinoca, cortamos o bolo que nos demos de comer e demos aos presentes. Depois demo-nos de beber a fanta. De seguida, foi o que mais irradiou o momento, o beijo. Todos cantavam o kissananane. E nos beijamos. Demo-nos o beijo de amor, na vontade de imitar os beijos das novelas brasileiras. Ah! O beijo da Angélica era tão doce. Lembrava-me o mel que o meu pai usava para a ferida, das colheradas que dei para me deliciar daquele açúcar natural.
Depois foi a vez da festa. Comemos e dançamos os cânticos tradicionais saindo das bocas fartas de alegria que nos iam abraçando. Foi uma festa inesquecível, a do meu casamento.
Ao entardecer, nos debatemos com a questão da lua-de-mel. Haverá lua-de-mel como acontece no casamento da novela? Onde seria? Faria eu, sexo com Angélica? Como o faria? E debatíamo-nos cada um no seu habitual silêncio. E nem se quer nos demos tempo do adeus. A Angélica e seus irmãos já com a situação crítica depois do falecimento do seu pai rumaram com a sua mãe par parte incerta. Andaram por um tempo para algures, perto do patrice. Até cheguei a ver a sua mãe e a Cecília, sua irmã por uns tempos. Ah! Sentia muita nostalgia sempre que visse a minha sogra Isaura, sem poder a perguntar sobre a minha esposa, Angélica. Hoje mulher que já deve ser Angélica, se quer lembrar-se-ia de mim, o Dodoca, seu marido de infância.
Inédito
Um presente para as crianças do Patrice Lumumba, meu bairro
e dos suburbanos bairros do meu país.
Eduardo Quive
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GLOSSÁRIO:
Manhembana – que é de Inhambane
Mabandido – Bandidos
Changana – povo/língua da província de Gaza (com forte influência na província de Maputo)
Bitonga – povo/língua da província de Inhambane
Lobolou – quem casou tradicionalmente
Djône – Expressão em XiRonga para referir a África do Sul
Madjonidjonis – moçambicano que trabalha na África do Sul (muito frequente na região sul de Moçambique)
Xicadjuana – proveniente da expressão em XiChagana “Cadju” que se refere ao Caju. Xicadjuana que é um Caju pequeno.
Xicaroce – proveniente da expressão “Ncaroce” que se refere à Castanha de Caju.
Masseves – pais dos noivos.
Nkulunguanas – Algazarra. Gritos e ritmos feitos para manifestar alegria.
Ululus – som saído dos Nkulunguanas
A mutchato i lembe wanê – canção popular frequentemente cantada nos casamentos no sul de Moçambique.
Kissananane – expressão em XiRonga originária do inglês “Kiss” para referir a um beijo. Kissananane – beijem-se.

8.12.11

Ensaio para um possível beijo

Hélia, menina de olhos castanhos e meigos. Sua voz, um suspiro de orvalho. Os seus lábios um segredo ainda por se revelar. Seu corpo, exímio quanto uma semente que brota perante o céu despido. Ainda por se galgar, está o sabor das suas mãos. A muito se escondera na minha alma.
Um dia nos encontramos em algures. Obras do acaso? Talvez fosse o contrário. Mas a verdade é que em tempos de tão ardentes desejos, apenas resta-nos a sorte, para junto de nós, chegar a pertitude. E nesse dia chegou.
Estávamos lacrados no meio de um percurso. Olhando nos seus olhos, galgando pelo seu paradisíaco corpo, implorei por um milagre: um beijo. Não era possível me calar e foi justamente nesse dia, depois de vários encontros que roubaram-nos apenas olhares e sorrisos. Fora ali em plena despedida do dia, a noite esclarecendo a sua presença, e nós, justificando o nosso encontro.
Volvemo-nos em discursos. Eu em falácias desnorteados as vezes com norteio. Hélia me entendia e sorria sempre a propósito. Ela galgando a minha alma, eu encaminhando os meus desejos à oratura que me escalava. Eram vontades da Hélia.
Lá iam os nossos dizeres. Não olhávamos os tempos que andavam. Saltitávamos em mais prosas. Embarcávamos em mais gentilezas. Mas não chegava o beijo pedido. Hélia caia em dúvidas e medos de gente. Mas a vontade estava iminente em algures do seu olhar. Havia de se revelar em algures do tempo – tempo maldito – dizia enquanto suportava o meu próprio falatório. Era eu quem falava. Hélia mantinha-se serena e compreensiva. Docemente perdoava cada demora minha nas falácias e o esquecimento da vontade que eu mesmo expressara sentir.
Longos momentos. Longo falatório meu. Medo dos olhos da Hélia? Era urgente que me calasse e atentasse a sua integridade bucal. Mas carecia da oficial cedência ao tal direito. Afinal tinha expressado a minha vontade de molhar a sua boca. Mas Hélia também entrara nos meus medos. Desconversava e alongava-se no meu percurso falástico.
Mas a hora se chegava. Era importante que mantivesse a calma. Hélia já se queixava do tempo. Ele ia passando pelas nossas pernas que se queixavam da longa espera. Enquanto isso, o meu coração falava – beije-a. E eu fingia não me ouvir. Ele prosseguia – você não percebe que já é tarde para não a beijar? Ela já quer, vás a deixar assim? – Claro que não.
Mas Hélia foi mais flexível e disse-me sorrindo – só ti posso dar um selinho. Como pode? Depois de longas e trémulas falácias de convencimento?
Hélia largou os ventos e bloqueou-me os lábios por jeito do tão dito selinho. Desgraça aos homens trás esse maldito! Se não fosse ele, o meu beijo com Hélia seria beijo-de-amor. Mas não foi, apenas molhou os meus lábios com o seu lipse de sabor a morango. Ainda tentei recolher algumas salivas, mas em vão, quando dei conta, Hélia, já se tinha terminado. Estava já nas considerações finais – Tchau, disse.
Hélia, vou ti ligar. Continuo a sonhar com seu beijo, explodi já em delírios da sua despedida.

7.6.11

A Assassina das Rosas Vermelhas


Às tardes passava da Escola Industrial primeiro de Maio, na capital de Maputo, não estudava ali, mas gostava daquela esquina, é porreira.
Havia um jovem, cujo nome ainda vou consultar, vendia rosas, talvez de todas as cores, será possível? Bem se é possível ou não, deixo de saber ou melhor não dava para perceber, porque sempre que olhava para aquele lado, coincidia com o olhar de uma mulher, bonita e elegante, na verdade parecia uma sereia que um simples peixe, uma mulher que cativa qualquer olhar atento, com uma voz suave, um olhar bastante firme, com um tom de inocência, em fim, um cativeiro que cativa a todos.
Quando olhava para aquele lado, via-lhe sempre com uma rosa vermelha na mão, e era assim todos os dias, pelo menos quando passava.
Foi assim por muitos dias, até que num deles decidi cumprimenta-lá, e não fugia a regra, virava a cabeça com os cabelos voando, arranjava-os com as mãos, molhava os lábios e piscava o olho, para o meu sufoco, sempre levantando as rosas. Noutro dia também foi assim, até que acabei ganhando coragem e perguntei-a:
- Entre você e as rosas, qual é a intimidade que existe? Principalmente as daqui do...deste rapaz!
- Aceitas uma?
- Não obrigado. Não vejo o porquê.
- Bem, prefiro não existir – retorquiu a cachopa de decote assustador e retirou-se da minha frente.
Oportunidades de vê-lá não me faltaram, só que dessa vez infelizmente não foi na esquina das rosas, aliás era uma esquina de rosas sim, mas diferente à do costume, no cemitério.
Não tive coragem de olha-lá duas vezes, nem se quer a cumprimentei, estava de luto e aos gritos rebolando ao chão. Diante do susto da donzela, não restaram-me alternativas, diferentes às de salientar com migo mesmo sobre a triste perda que a Rosinha teve. E assim foi, quem não desperdiçou foi o coveiro que estava do lado direito, por sinal escondendo - se de alguém, um daqueles rapazes que sempre tem pendentes no cemitério.
- Essa daí...acho até que a direcção do cemitério vai construir-lhe uma residência aqui dentro – comentava o coveiro comum ar familiar.
- Já o fizeram para alguém antes?
- Não, mesmo se o quisessem, no mundo, até pode se morrer a sério, mas não temos um cliente tão acídulo como esta senhora, sempre daria no mesmo, concluiu.
Amedrontado, fiz–me de contrário dos seus comentários, ausentei–me do seu lado simplesmente. Não que as suas palavras tenham me intimidado, mas qual é a verdade que não dói a ninguém?
Um dia desses encontrei–a novamente de luto, pelo que pude notar, novo e também com novas lágrimas, inteirando novo cadáver no mesmo cemitério. Não tardou para recordar–me das palavras do coveiro intrometido e perguntei para mim mesmo porque é que a direcção do cemitério precisaria de lhe oferecer uma residência por dentro?
Enquanto andava, via campas que por perto estavam, algo fazia-me entender que cada uma delas acendia o vermelho, neles só homens estavam inteirados, pelas fotografias, novos e bonitos, tanto que qualquer um que passasse percebia a perca que o pais teve, fiquei com medo, tudo parecia óbvio de mais para constituir a verdade, juro que não queria acreditar.
Talvez seja por isso que comprava e rosas todos os dias, vestida de uma maneira magnífica.
Sobe ainda que eles morriam de casamento marcado com ela e depois de uma relação sexual.

Meio-dia no Tunduro


O dispersamento se exaltava com o calor de Maputo. Rabiscam-se as mentes de gente que se povoa provisoriamente entre as matas do jardim Tunduro.
Eis o palco onde muitas acções se inspiram: o homem do verniz passa olhando os dedos das senhoras; os revendedores de recargas vagueiam à procura de clientes, estes que apresentam desinteresse e bolsos vazios. Não assobiam, apenas olham quando olhados e levantam as recargas perguntando: vodacom ou Mcel?
Estudantes também se exilam e compõem o provisório povoado.
São meio-dia e meia, na metade da labora, beneficiam-se também operários e trabalhadores dos monhés da Baixa.
Sentados, deitados de barriga, uns mesmo de costas viradas à frustração de não ter nada para enganar o estômago nessa hora.
De olhos fechados fingem não ver o homem dos chouriços de porco, como se todos fossem muçulmanos, mas não é isso. É por falta de dinheiro. Justificam-se os corajosos.
Outros inventam outras discrições para não ouvir o homem dos leites frescos e quibons que não para de tocar a sirene, como se fosse polícia.
O estômago rói sem dó nem piedade, surge uma vontade de roer os dentes e de não olhar para alguns mulatos que comem pão com badjia. Irrita-me ouvir conversa de alguns casais que lembram-se, nos meus ouvidos, sufocando o calor, sede, fome e qualquer outra coisa com a sua astúcia indiscreta.
São treze. Enche o Tunduro. Mais homens sem opções aparecem.
Alguns folheiam páginas de papéis, outros com caneta na mão rectificam cálculos, mas há quem prefira manusear o celular, organizar as roupas para voltar a disputa de clientes na Guerra Popular.
Alguns vagueiam de um lado para outro: uns são repórteres da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e outros da RM (Rádio Moçambique) lá de cima, uns são mesmo de baixo. Todos circulam. Esbarram-se entre amigos e alguns desconhecidos saúdam-se desconfiados de conhecidos.
Doutro lado os fotógrafos alimentam alguma esperança, se virá algum cliente! Mas só pode ser branco, nós negros não tiramos fotos com fome, nem as uma da tarde. Quando há muito sol ficamos mais feios e cheiramos mal. Assim não pode tirar foto.
Alguns amantes se beijam, ignorando todos olhares e enfrentando as horas, o calor e o silêncio que domina o espaço. Não meditam. Amam-se.
O sol aproxima-se dos bancos que rodeiam o correcto dos Msahos – timbilando a arte da escrita. Lembro-me do Calane da Silva e Gulamo Khan. Tempos que não vivi. Os Msahos que levavam qualquer um ao jardim para ouvir poesia aos últimos sábados de cada mês. Não vivera esse tempo. Bons foram esses tempos. O quanto foram bons!
De resto Tunduro é mato. É mato mesmo. Onde ficam muitos negros como se fossem selvagens. Ah! Brancos também já vão. Ah! Parecem selvagens também! Por que mato ficam animais selvagens, pois não!!?
No Tunduro habitam Mochos, lagartos e outros répteis. Mas de repente há gente que o habitam. Gente de todos níveis. De várias etnias. Chopi, changana, Nyungué, Nguni, Macondes e etc. Todos. Pretos, mulatos e brancos.
Gente da nossa terra ou não. Pobres ou ricos, mas fazedores de várias opiniões públicas, porque alguns microfones, de quando em vez abrem-se por ali.
Eu também me inspirei ali. No Tunduro, claro.
Matem o Tunduro para ver o que acontecerá ao meio-dia em Maputo.

9.10.09

Retirem os Homens do bem da Fauna


Há razões que por si só, se justificam, mesmo dependendo de explicações do homem para se tornarem verídicas.
O problema é que nem sempre o que o homem faz ou diz se explica por si, às vezes parecemos ervas daninhas contra as grandes produções do maná, o sagrado alimento.
Pena que milagres que aconteceram com o povo de Israel, quando libertados das garas do Faraó, no Egipto, pelo saudoso Moisés, não se repetirão tão já na nossa nesta fauna, Matola.
Fala-se sempre do conflito homem animal, em que os homens encontram – se, abitualmente, residentes nas cidades, apenas visitam pelo sofrimento as matas, mas nunca se falou da necessidade de ser o homem a ser retirado das faunas selvagens que fazem de si o alimento assaciante para o omnipotente Rei da selva, escoltado por uma manada de Tigres esfomeados, tornando, este luigar, um campo de batalhas mortíferas para homem.