8.11.12

A morte de Eu!




Eu era forte e cheio de esperança em cada passo da sua vida. Limpo de cabelos crespos, Eu, era aquele que movia-se sem destino de cabeça erguida sem questionar as circunstâncias, sem medo do tempo, olhava a vida como única.
Espírito pluramente positivo, descia ao baixo para mais alto se elevar. Eu era aquele que era criança adulta na rua até as altas horas na procura de esgotar do produto de patrão Suzete, para ter quinhenta de comida em casa. Eu, era ele sem si quando anoitecesse sem que pudesse fazer algo para esquivar-se da vida medíocre que vivia no Xiphamanine. Lavrou a terra no Mambone, pescou na barra de Limpompo e sobreviveu os mais de sete afogamentos quando enfeitiçado pela velha M’Tente. Este menino Eu é mesmo esperto mesmo na pequeneza, conseguia enganar a vida como se engana um estômago faminto ao meio dia no Maputo onde se encontrava antes de morrer.
Treze dias antes da sua morte, Eu, passava pelo cemitério de M’Xitsena e bicava a sua única avó conhecida que morreu nas últimas cheias. As bocas sem silêncio contam que a velha morreu depois de lutar com a água na boca que teimava a entrar. Entrou-lhe por todo o sítio, pela boca, olhos, nariz, orelha, até pelos cabelos. O precioso líquido li valera alguma pena, pelo menos agora, morta a doze anos, Eu quando chega no Maputo na sua primeira vez, quis conhecer M’Xitsena para dar filori à vovó.
De seguida, como um passo para a frente, Eu, saiu para a rua e tentou fazer negócio. Fazia parte do seu eterno juramento que Maputo seria o espaço da sua subida e melhoria de vida. Ainda a pouco, lembrara-se da avó.
“Meu neto, quando você crescer vai ser grande, gente como aqueles que estão no Maputo. Viverás em casas sobrepostas, cartarás água pelo copo e não pelo bidom. Sairás em todos noticiários e viajarás pelo mundo como se tudo fosse teu.”
Incrédulo, Eu só volta a replicar a resposta que deu à avó na altura “Eu!?”. E assim ficou Eu. Eu morreu de susto como sua mãe que engoliu a terra na indecisão dos tempos futuros. Eu era mulato sem bandeira e sem país, filho de um candongueiro monhé cujo nome ainda se procura pelo mundo. Eu, era tão apátrida que nem em si tinha lugar para viver. Eu era só, sem ninguém, repartido pelas divisões do mundo transcendental das flores que beijam o dia e o sol que assa as costas pretas da sua avó, única garante da sua sobrevivência. Mas Eu, mesmo temendo-se no meio desse nada, cumpriu a sua meta, viveu e morreu ou vice-versa. 

2 comentários:

Poeta disse...

O "Eu" sobrevive, morto ou vivo, de corpo, mas de alma sobejamente plena de sabedorias, de ensinamentos e de caminhos a mostrar. "Eu", agora em noticiários, blogs e sites, pode ser multiplicado por pátrias outras, as de si, por nascença e aqueloutras, por adopção, que o mundo todo lhe chama de filho da poesia.

Xiguiana da Luz disse...

E "Eu" tem esse nome por ser esse menino universal. A poesia é esse recanto sem canto. sem chão. Anda e pisa os homens para ser "Eu". Um eu que se preze é um "Eu" flutuante.

Agora quem são outros "Eus" que andam a nossa volta e nos chamam de homens?