1.10.11

Versos perversos dispersos

Apenas exógeno
Sem nenhum motivo
Eles foram
E cá não mais voltaram
Não levaram nada
E nem deixaram
Apenas se foram
Versados do vazio
Em silêncio profundo e mortífero

Apenas foram
Em marchas moras
- Muito bem ensaiados -
Sem discursos nem percursos
Embriagados de uma razão ainda por haver
Foram e não deixaram rasto
Nem para nós nem para ninguém
Vingança dos deuses do além
Cai sobre nós

Neste mortífero Setembro
Já se foram demasiados
- No primeiro a dor foi maior
- No segundo alguém se lamentou
- No terceiro o culminar das expectativas
Quando o quarto se foi…
O terror se içou
Quem mais se irá?
Eis o dilema
Sem os deuses cá para responder

8.9.11

Falácias de um ex-falecido

- Verso
Vento
Vozes
Vontade
Verdade
Virgindade
- Estrofe
Encatações
Emoções
Escrita
- Palavra
Passos
Principio
Partida
Paixão
Prazer
Parceria
Penetração
Porcaria
Pessoas
Paz
- Letra
Lealdade
Lamentações
Loucura
Lírica
Literatura
- Sentido
Sorriso
Sexo
Sentimentos
Subjectividade
- Caminhos
Começo
Chegada
Carrinho
Canções
Cultura
Conjuntura
Convergência
Conto
Crónica
- Fim
Felicidade
Fraternidade
Fantasia
Feitiço
Factos.
- Término
Traição
Tradição
Ternura
Táctica
Timbila
Teor
- Destino
Doçura
Dança
- Mar
Melodias
Mulher
Masturbação
Mentira
Maldição
- Água
Amor
Amizade
Alegria
Arte
Abraço
Acção
Argumentação
- Beijo
Bondade
Bonança
Balança
Balada
Universalidade
Unidade
Originalidade
Oralidade
Objectividade
Realidade
Igualdade
Honestidade
Justiça
Gente
Homem
Poesia

Morte
Vida

Insólito!

Conspiração total
Violação trágica
Atentado desumano
Minúsculo inquilino do inferno invadiu a terra
Não sobrou ninguém
Mas ainda há gritos
Não se ouve nada
Apenas choram os ares
Sem ninguém para os respirar
Muitas vidas se foram
Perdidas
Antes da hora
Que hora?
A vida tem hora?
E que horas são?
22:48
Na rua não tem ninguém
Rusga um…
Sem gente
Locomovendo-se a nada
Vai se acelerando
Buzina – pim – pim…
Algo se esquiva
Outro recua-se para evitar o pior
Mas não é gente
É o silêncio sem privacidade
Iludida pela buzina do semi-colectivo
Susto do medo
Morte da vida
Desgraça da miséria
Pobreza absoluta
É mais um
Que levou mais um
E mais ninguém falará
Porque ninguém os impede
Fazem e desfazem
Por isso que todos morremos
E ficaram eles
Com carros, travões, aceleradores e volantes
Buzinando contra a próxima vítima
É mais um
Insólito

9.8.11

Miserável



Para Manuelito,
pela loucura que o persegue sem fim

Manuelito!


Passa fome e passa frio. Não tem vizinho. Vive só. Sem tom nem voz. Ao relento – nas esquinas do Patrice – como esqueleto. Quando quer é alegre, mas sempre se entristece. Geme de frio lambido pela fome. Anda. Fala. Mas não sente, nem ouve. Apenas vê. E só vê o que vê. Vê o que quer. Brinca com quem quiser, mas ninguém é seu amigo. Todos o conhecem, mas ele, a ninguém reconhece. Ás vezes canta, mas não entoa hino nenhum.

Manuelito é ninho sem passarinho. Caminho sem gente. Ngalanga¹ sem dança, terra sem nação. Vive sem noção.

Manuelito não tem razão. Vive sem protecção. Mas é gente. Sofre com o que não sente. Chora por quem não conhece. Seu dia não amanhece. Todos o conhecem, mas a ele, ninguém reconhece. Por isso que enlouquece.

Manuelito é louco no meu bairro e lúcido em qualquer lugar!



1. Ngalanga – tipo de ritmo e dança tradicionais.

3.8.11

O Morto


Para minha avó,
esposa segunda do meu pai,
 mãe de dois irmãos meus
e falecida

Um bando de dor se excitou,
Lágrimas em versão dos hinos celestes,
Buscavam o momento do adeus último.

Diante de mim, estava a nova habitante do além
Do poente
Do fim
 Da noite que não amanhece.

De doloroso
Nascia no escancaro,
A tumba
O túnel do abrigo na morte.
Mais uma vida se rendera aos deuses assassinos
Desta vez
Foi em Junho.

Aos meus olhos
A pirâmide esquivou-se do mortífero Setembro…
Quem sobrou….
Quem sobrou?
O que ficou?

… A maldita que engolirá a minha mãe?
A peste que cobiça o meu pai?
O próximo é desconhecido
Mas existe
E a peste o levará para onde quiser