7.6.11

Beijo de Mulata


Rumores corriam na minha boca, trancada pelos lábios que se molhavam aos lábios de uma menina que com migo fornicou.
Não beijara ninguém antes, aliás, soubera de alguém que Adão e Eva o fizeram, mas em forma de pecado, não era divino o fazer sem que Ele autorize - Dizem os divinos.
Ao mesmo que se passava uma tempestade de calotes, olhando atentamente na doçura que não sabia qual, sem que a aprovasse com os meus próprios aprovamentos.
O meu primeiro beijo…beijo de mulata.
Era ela que vira aos meus sonhos. Que antes pensara que era de criancice, mas não era.
Era mais é, sonho dos pretos ao mesmo tempo, sabia-se que não se devia tocar na filha de cor branca, muito menos a dos Ferreiras.
Não se podia tocar, brincar, muito menos namorar as brancas “gostosas” namoradas por homens sexuados.
Ninguém. Menos eu. Embora não tenha conhecimento da historicidade das intrigas que em tempo desuniram a humanidade: homens e mulheres.
E era assim: apenas que se convivesse preto com preto. Contaram-me os antigos.
Mas não crescera com essas profecias. Aprendera que ninguém se podia  desigualar de alguém.
Todos éramos todos ou éramos ninguém.
Carla também era assim.
- Uma mulata misturada com negros?
- De onde é!!!?
- Nada de brincar com filhas de brancos!
Todos aconselhavam em jeito de ameaça.
Ninguém acostumara-se com uma branca que estivesse no meio de todos. Ninguém mesmo.
Nem eu me aproximara dela.
Mas Carla não era assim. Era uma branca com sangue de escravatura.
Que ninguém o duvidasse: estudava na escola de pretos pobres, que na maioria se apresentavam a escola esfarrapados e descalços; professores que batiam a todos, mesmo envermelhando a menina que se igualava à princesa Russa.
Não podia escapar do xibalo que os seus antepassados não tiveram.
Brincava com todos. Não se diferenciava dos Zé-ninguém nauseabundos.
Carla era como se fosse a escrava Isaura em si (escrava branca). Não desprezara nenhum preto se quer. Eu que o diga.
O problema mesmo… é que malta nós é que a tratávamos com uma deusice.
Todos os homens a desejavam.
Nenhum homem deixava de homem aos seus olhos.
Todos queríamos ser homens, incluindo a minha limitada masculinidade, que quando submetida a ambições sexuais se pode duvidar.
Era ela a Tchanaze, a donzela de Sena. Os homens se apaixonavam a cada passo que ela passava, as mulheres se enchiam de inveja ao seu vaguear pelas bandas e os defuntos, abandonavam as tumbas ao encontro da sua gostosice que fazia todos homens verter espermas pela boca.
Era ela a Xiluva em pessoa.
Não podia me desapaixonar dela.
Era ela.
Olhava para aquela mulher como se visse comida em tempo de fome, como se fosse àgua quando há sede.
A cada olho que olhava deixava de ser eu.
A queria como se de mim não quisesse mais.
Sentia-me amando aos 12.
Eu morreria logo que a tivesse, para não mais amar.
Carla também me queria, eu sei.
Carla olhava-me como se alguma coisa eu fosse, eu via.
Os olhos dela diziam-me e eu ouvia.
Nunca mais vi o olhar igual.
Vi a menina se contorcendo de desejos de me ter como se fosse o inferno a espera dos pecadores.
Como se fosse o cemitério a espera de defuntos.
Nunca vira o olhar igual na vida. Era apenas o da Carla.
Carla amava-me, eu sei.
Isso era tudo que não podia duvidar.
Carla me beijou e eu não podia me imaginar.
Nunca antes sentira gosto igual.
Na mesma hora, ela dizia também o mesmo. Eu sei.
Carla amava-me.
Beijara aquela boca em jeito de sangue nos anémicos.
E eu os queria como os homens que a uma prostituta se exaltam.
Carla me amou naquele beijo. Eu sei.
Era o Beijo da Mulata em um preto como eu.
Foi um e único que tivemos antes dela se ir.
Ela foi e eu fiquei…fiquei aqui.
Mas um dia voltaremos a nos desejar como nunca e a Mulata, me vai beijar de novo, como nunca o fizera com alguém.

Meio-dia no Tunduro


O dispersamento se exaltava com o calor de Maputo. Rabiscam-se as mentes de gente que se povoa provisoriamente entre as matas do jardim Tunduro.
Eis o palco onde muitas acções se inspiram: o homem do verniz passa olhando os dedos das senhoras; os revendedores de recargas vagueiam à procura de clientes, estes que apresentam desinteresse e bolsos vazios. Não assobiam, apenas olham quando olhados e levantam as recargas perguntando: vodacom ou Mcel?
Estudantes também se exilam e compõem o provisório povoado.
São meio-dia e meia, na metade da labora, beneficiam-se também operários e trabalhadores dos monhés da Baixa.
Sentados, deitados de barriga, uns mesmo de costas viradas à frustração de não ter nada para enganar o estômago nessa hora.
De olhos fechados fingem não ver o homem dos chouriços de porco, como se todos fossem muçulmanos, mas não é isso. É por falta de dinheiro. Justificam-se os corajosos.
Outros inventam outras discrições para não ouvir o homem dos leites frescos e quibons que não para de tocar a sirene, como se fosse polícia.
O estômago rói sem dó nem piedade, surge uma vontade de roer os dentes e de não olhar para alguns mulatos que comem pão com badjia. Irrita-me ouvir conversa de alguns casais que lembram-se, nos meus ouvidos, sufocando o calor, sede, fome e qualquer outra coisa com a sua astúcia indiscreta.
São treze. Enche o Tunduro. Mais homens sem opções aparecem.
Alguns folheiam páginas de papéis, outros com caneta na mão rectificam cálculos, mas há quem prefira manusear o celular, organizar as roupas para voltar a disputa de clientes na Guerra Popular.
Alguns vagueiam de um lado para outro: uns são repórteres da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e outros da RM (Rádio Moçambique) lá de cima, uns são mesmo de baixo. Todos circulam. Esbarram-se entre amigos e alguns desconhecidos saúdam-se desconfiados de conhecidos.
Doutro lado os fotógrafos alimentam alguma esperança, se virá algum cliente! Mas só pode ser branco, nós negros não tiramos fotos com fome, nem as uma da tarde. Quando há muito sol ficamos mais feios e cheiramos mal. Assim não pode tirar foto.
Alguns amantes se beijam, ignorando todos olhares e enfrentando as horas, o calor e o silêncio que domina o espaço. Não meditam. Amam-se.
O sol aproxima-se dos bancos que rodeiam o correcto dos Msahos – timbilando a arte da escrita. Lembro-me do Calane da Silva e Gulamo Khan. Tempos que não vivi. Os Msahos que levavam qualquer um ao jardim para ouvir poesia aos últimos sábados de cada mês. Não vivera esse tempo. Bons foram esses tempos. O quanto foram bons!
De resto Tunduro é mato. É mato mesmo. Onde ficam muitos negros como se fossem selvagens. Ah! Brancos também já vão. Ah! Parecem selvagens também! Por que mato ficam animais selvagens, pois não!!?
No Tunduro habitam Mochos, lagartos e outros répteis. Mas de repente há gente que o habitam. Gente de todos níveis. De várias etnias. Chopi, changana, Nyungué, Nguni, Macondes e etc. Todos. Pretos, mulatos e brancos.
Gente da nossa terra ou não. Pobres ou ricos, mas fazedores de várias opiniões públicas, porque alguns microfones, de quando em vez abrem-se por ali.
Eu também me inspirei ali. No Tunduro, claro.
Matem o Tunduro para ver o que acontecerá ao meio-dia em Maputo.

2.6.11


Não vira seu rosto
Não olhara seu corpo
Nem a sua voz me reconhece
Mas o meu coração
                              [este maldito cujo filho de mussatanhoko¹]

Fez-me cuspir amores pelos ares
Pelas veias
Faz circular vontades
Pelo pensamento
Torna esta mulher presente em mim.

E uma autêntica massiguinta²
Instalou-se na minha vida
Ambição pelos lábios dela
O desejo de a possuir
A alegria de ama-la
E a loucura da sua inexistência!

Um dia ela virá
_____________________________________
Glossário:
1.Mussatanhoko – Filho da mãe!
2.Massinguita – …que dá azar!

Quando a minha mãe voltar



Vou chama-la de mãe
Vou chorar como bebé
Adoecer para me curar com o seu amor
Embalar-me no seu colo
E pedir socorro sempre que quiser.

Quando a minha mãe chegar

Vou abandonar a minha mãe rua,
Esconder-me da lua,
Zanzar pelos cantos do teto da minha casa
Esquecer a dor,
Fome,
Medo,
Desamparo,
Frio,
Vou esquecer tudo por completo.

Vou esquecer o papelão
A panela de xikotela
A casa sem janela
E não vou brincar de polícia e ladrão.

Quando a minha mãe estiver aqui

Vou correr sem pernas para os seus braços,
Viver de abraços
E sentir os seus mimos mansos.
Pelo canto da minha mãe
Pelo abrigo do meu pai
É a vida na rua que se vai.

Quando a minha mãe voltar…
Mamanô…
Não gritarei mais o seu nome em vão.

Quando a minha mãe voltar
E da rua me quiser tirar
Não vou negar
Levarei com migo a Maria Xiteratuine
Para com migo casar,
Não mais sonharemos na vontade dos ventos
Dormindo ao relento
Vamos para casa da minha mãe.

Solidania


Vida sem voz
Desarticulada
Alma trancada
Fechada

Como o entrar do sol


Entrar que entardece


Entrar que faz parir a noite.

Idas sem voltas
Em volta circulam dissabores
Solidão.

A vida mais uma vez afogou-se noutros viventes
E eu?

Lembranças
Invocam-se em pensamentos calmados
Distância
Que vem com arrepios
Já não me esqueço dela.

Apenas disperso-me doutras
A espera de nada
Apenas da saudade amiga.

Saudade madrinha
Exaltada com gritos
De ontem e hoje
Sozinho sem mim.
Em pura solidania!